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Mostrando postagens com o rótulo poesia
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Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,   a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou-se a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra frente vai ser diferente.  Carlos D rummond de Andrade

Cegueira Bendita

Ando perdida nestes sonhos verdes De ter nascido e não saber quem sou, Ando ceguinha a tatear paredes E nem ao menos sei quem me cegou! Não vejo nada, tudo é morto e vago... E a minha alma cega, ao abandono Faz-me lembrar o nenúfar dum lago 'Stendendo as asas brancas cor do sono... Ter dentro d'alma a luz de todo o mundo E não ver nada neste mar sem fundo, Poetas meus irmãos, que triste sorte!... E chamam-nos a nós Iluminados! Pobres cegos sem culpas, sem pecados, A sofrer pelos outros té à morte! Florbela Espanca

Priscilla... minha Priscilla.

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Priscilla é poesia. É música. É palavra esquecida. É amor de passado. Lembrança perdida. Priscilla é a dor que eu guardo no peito, Que pouco compreendo Priscilla é meu tormento,  meu pesadelo, meu karma, meu enigma. Priscilla é sofrimento, É dor que se deseja e se guarda com carinho. Priscilla... é minha Priscilla.
Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesmo, mas com certeza não serei o mesmo pra sempre. (Clarice Lispector)

Cordeiro Manso

Todos os símbolos que me definem, arte pelo corpo. Alma rabiscada na pele. Proteção, equilíbrio; mandamentos de uma vida que deveria, e é uma constante e doce irônia. Priscilla Cordeiro

Lua Nova

Dorme tensa a pequena sozinha como que suspensa no céu Vira mulher sem saber sem brinco, sem pulseira, sem anel sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê Sem mãe perto, sem pai certo sem cama certa, sem coberta, vira mulher com medo, vira mulher sempre cedo. Menina de enredo triste, dedo em riste, contra o que não sabe quanto ao que ninguém lhe disse. A malandragem, a molequice se misturam aos peitinhos novos furando a roupa de garoto que lhe dão dentro da qual mestruará sempre com a mesma calcinha, sem absorvente, sem escova de dente, sem pano quente, sem O B. Tudo é nojo, medo, misturação de “cadês.” E a cólica, a dor de cabeça, é sempre a mesma merda, a mesma dor, de não ter colo, parque pracinha, penteadeira, pátria. Ela lua pequenininha não tem batom, planeta, caneta, diário, hemisfério, Sem entender seu mistério, ela luta até dormir mas é menina ainda; chupa o dedo E tem medo de ser estuprada pêlos bêbados mendigos do Aterro tem medo de ser machucada, medo. Depois mestru...
Deixou o vermelho sangue pelos tons de rosa. A diva rubra que sempre quis ser arte, hoje só deseja minimamente parecer bonita, discreta e serena. Você a vê, tão singela, e não percebe. Não é que o fogo tenha se apagado; mas, contido, espera o momento. Momento de seduzir e encantar. E antes que dê por si, sente o fogo em seu olhar, sempre rubro.
There is a pleasure in the pathless woods, There is a rapture on the lonely shore, There is society, where none intrudes, By the deep sea, and music in its roar: I love not man the less, but Nature more, From these our interviews, in which I steal From all I may be, or have been before, To mingle with the Universe, and feel What I can ne'er express, yet cannot all conceal. Lord Byron
Eu tenho uma tristeza intrínseca a mim. Me apoio nela enquanto, paulatinamente, ela se alimenta de mim.

O Arco

Que quer o anjo? Chamá-la O que quer a alma? perder-se Perder-se em rudes guianas para jamais encontrar-se Que quer a voz? encantá-lo. Que quer o ouvido? Embeber-se de gritos blasfematórios até que dar aturdido. Que quer a nuvem? raptá-lo, Que quer o corpo? solver-se, delir memória de vida e quanto seja memória. Que quer a paixão? detê-lo. Que quer o peito? fechar-se contra os poderes do mundo para na treva fundir-se. Que quer a canção? erguer-se em arco sobre os abismos. Que quer o homem? salvar-se, ao permeio de uma canção. Carlos Drummond de Andrade
De que serve viver tantos anos sem amor Se viver é juntar desenganos de amor Se eu morresse amanhã de manhã Não faria falta a ninguém Eu seria um enterro qualquer Sem saudade, sem luto também Ninguém telefona, ninguém Ninguém me procura, ninguém Eu grito e um eco responde: "ninguém!" Se eu morresse amanhã de manhã Minha falta ninguém sentiria Do que eu fui, do que eu fiz Ninguém se lembraria Antonio Maria

Desencanto

Eu faço versos como quem chora De desalento... de desencanto... Fecha o meu livro, se por agora Não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente... Tristeza esparsa... remorso vão... Dói-me nas veias. Amargo e quente, Cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouca, Assim dos lábios a vida corre, Deixando um acre sabor na boca. - Eu faço versos como quem morre. Manuel Bandeira

As Sem-razões do Amor

Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. *Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. *Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor. Carlos Drummond de Andrade
"O amor, quando se revela, Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, Mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente Não sabe o que há de *dizer. Fala: parece que mente Cala: parece esquecer Ah, mas se ela adivinhasse, Se pudesse ouvir o olhar, E se um olhar lhe bastasse Pr'a saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala; Quem quer dizer quanto sente Fica sem alma nem fala, Fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe O que não lhe ouso contar, Já não terei que falar-lhe Porque lhe estou a falar.. " Fernando Pessoa

Justificativa

Tenho saudade. Mas me mantenho distante, meu amor. Imagino que seja por vergonha de não te fazer feliz como seu sorriso me faz; de não ter mais em mim o que te fez me amar também. Tenho saudade. Tanta saudade que em mim não cabe, ficou guardado numa caixa de presente gigante, e infinita, e colorida; Pra dar espaço em meu peito para o amor, somente. Me mantenho ausênte, imaginando que não há mais espaço para minha incompletude em sua perfeita e harmônica existência. Me permito apenas ser expectadora, mas ainda te amo. Priscilla Cordeiro
"Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo, Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja esta mão vil que te afaga, Escarra nesta boca que te beija!" Pau d'Arco - 1901 (Augusto dos Anjos, Eu e Outras Poesias)

Mutualismo

“Dentro do homem mora um anjo e uma fera. O anjo guarda a fera tão bem escondida como a fera guarda o anjo. Quando o anjo se ilude, quem ama é a fera. Quando a fera se fere quem se machuca é o anjo. Na constância do verbo quem padece é o homem por causa do anjo, por causa da fera.” Autor Desconhecido
"De tudo ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando... A certeza de que precisamos continuar... A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar." Fernando Pessoa

HUMORES

Tem dias de muita chuva, Dias de roupa no chão, Dias de movimento, Dias de sim e de não. Mas você sempre inventa Um dia de tormenta Prefiro dias de algodão. Lou Bertoni
"Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que segue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo : "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu." Fernando Pessoa