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CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs Des violons De l'automne Blessent mon coeur D'une langueur Monotone. Tout suffocant Et blême, quand Sonne l'heure, Je me souviens Des jours anciens Et je pleure. Et je m'en vais Au vent mauvais Qui m'emporte Deçà, delà, Pareil à la Feuille morte. Paul Verlaine

Saudade

Saudade palavra doce, Retrata-nos tanto amargor Saudade é como se fosse espinho cheirando a flor É uma palavra breve, Mas tão longa de sentir E a gente que a escreve tem, A saber, traduzir Um desejo de estar perto, de quem longe Esta de nós, um ai que não sei ao certo Se é um suspiro ou se é uma voz Um sorriso de tristeza, um soluço de alegria, Suplicio da incerteza, esperança que alivia. Saudade é suspiro é ânsia, vontade da gente ver A quem nos vê a distância com olhos de bem querer A saudade é calculada por algarismos também Distância multiplicada pelo fator querer bem Saudade é tristeza é tédio que enche os olhos de ardor Saudade dor que é remédio Remédio que aumenta a dor A palavra é bem pequena Mas diz tanto de uma vez Por ela valeu a pena Inventar-se o português. Vicente Celestino

Como a noite descesse...

Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e [ desesperado diante dos horizontes [ que se fechavam, gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível [ Aurora! e vi logo que só as estrelas [ é que me entenderiam. Era preciso esperar que o próprio passado [ desaparecesse, ou então voltar à infância. Onde, entretanto, quem me dissesse ao coração trêmulo: — É por aqui! Onde, entretanto, quem me dissesse ao espírito cego: — Renasceste: liberta-te! Se eu estava só, só e desesperado, por que gritar tão alto? Por que não dizer baixinho, como quem reza: — Ó doce e incorruptível Aurora... se só as estrelas é que me entenderiam? Emílio Moura

Já não me importo

Já não me importo Até com o que amo ou creio amar. Sou um navio que chegou a um porto E cujo movimento é ali estar. Nada me resta Do que quis ou achei. Cheguei da festa Como fui para lá ou ainda irei Indiferente A quem sou ou suponho que mal sou, Fito a gente Que me rodeia e sempre rodeou, Com um olhar Que, sem o poder ver, Sei que é sem ar De olhar a valer. E só me não cansa O que a brisa me traz De súbita mudança No que nada me faz. Fernando Pessoa

A diferença entre o céu e o inferno

Ele esteve lá Conta-se que um poeta estava um dia passeando ao crepúsculo em uma floresta, quando de repente surgiu diante dele uma aparição do maior dos poetas, Virgílio. Virgílio disse ao apavorado poeta que o destino estava sorrindo para ele e que ele tinha sido escolhido para conhecer os segredos do Céu e do Inferno. Por mágica, Virgílio transportou-se e ao poeta, ainda apavorado com experiência tão súbita, ao velho e mítico rio que circundava o submundo. Entraram em uma canoa e Virgílio instruiu o poeta para remar até o Inferno. Quando chegaram, o poeta estava algo surpreso por encontrar um lugar semelhante à floresta onde estavam, e não feito de fogo e enxofre nem infestado de demônios alados e criaturas nojentas exalando fogo, como ele esperava. Virgílio pegou o poeta pela mão e levou-o por uma trilha. Logo o poeta sentiu, à medida que se aproximava de uma barreira de rochas e arbustos, o cheiro de um delicioso ensopado. Junto com o cheiro, entretanto, vinham misteriosos sons ...

Tão farta de tudo...

"Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor. Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que sejafora de si mesmo De resto não é lirismo Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc Quero antes o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbedos O lirismo difícil e pungente dos bêbedos O lirismo dos clowns de Shakespeare — Não quero mais saber do lirismo que não é libertação." (Manuel Bandeira)
" Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa